Home / Blog / A coquinha que corrói o setor

A coquinha que corrói o setor

Tem uma corrupção que todo mundo conhece, mas ninguém fala a respeito. Não está nos noticiários. Não virou CPI.  É pequena, cotidiana, quase normalizada. Tem até apelido carinhoso: coquinha. E quem trabalha no transporte com certeza já se deparou com ela.

Uma Coca-Cola, um lanche, um dinheiro por fora. Uma bola para o funcionário passar a carga. Atividades do dia a dia que não parecem uma coisa, mas na verdade são outra: propina em doses diárias.

São entraves na rotina de quem trabalha no setor. E estão por toda parte.

O que é a coquinha e por que o nome não diminui o problema

O eufemismo ajuda a engolir. Coquinha soa pequeno, inofensivo, quase simpático. Mas quando uma Coca-Cola vira condição para um motorista conseguir carregar, o nome não importa mais. O que existe ali é extorsão. É corrupção. É alguém exigindo pagamento para fazer o trabalho para o qual foi contratado.

O funcionário que só libera carga mediante algum tipo de compensação está criminalizando uma atividade que deveria ser simplesmente operacional. Não importa o valor ou o tamanho do benefício: quando a corrupção pequena é aceita, além de prejudicar as operações diárias ela também abre caminho para a grande.

E no fim, quem paga essa conta é o setor inteiro.

Um setor que já opera no limite

O transporte rodoviário de cargas movimenta mais de 60% de tudo que circula no Brasil. É a espinha dorsal da logística nacional. E opera, em grande parte, com margens apertadas, custo de combustível alto, financiamento de frota pesado e pressão constante de embarcadores para baixar o frete.

Nesse cenário, cada real desviado em propina é um real que sai da operação. Da manutenção do caminhão, do salário do motorista. O prejuízo que a corrupção provoca no setor é incalculável, porque muitas vezes acaba nem sendo denunciado. Esse custo acaba sendo repassado pra quem trabalha honestamente.

E quando a corrupção está dentro da cadeia de contratação de frete, no dia a dia, na portaria do embarcador, na mesa do gestor de logística, ela deforma a concorrência. Quem não paga fica de fora. Quem paga entra no jogo, mas carrega um custo invisível que compromete a margem e a saúde do negócio.

A normalização é o maior problema

A frase que mais se ouve quando o assunto vem à tona é sempre a mesma: “é assim que funciona, sempre foi assim.”

Mas aceitar que sempre foi assim é muito conveniente. Ainda mais pra um setor que tem o tamanho e a importância do transporte.

A normalização da coquinha cria um ambiente onde quem se recusa a pagar perde negócio. O resultado? Muita gente entra no esquema porque precisa trabalhar e não vê outro caminho, ainda mais em um mercado cada vez mais concorrido. E quem pratica esse tipo de propina acaba protegido pelo silêncio coletivo.

Corrupção pequena, indignação seletiva

Tem uma contradição que precisa ser dita com clareza.

Não dá para se indignar com escândalo de corrupção na política, com desvio de verba pública, com licitação fraudada, e ao mesmo tempo normalizar a coquinha na portaria do embarcador. Corrupção não tem tamanho mínimo para ser levada a sério. Ela começa na Coca-Cola e escala até onde o ambiente permitir.

Quem exige propina para fazer o próprio trabalho não tem moral para reclamar de político corrupto. É a mesma lógica, em escalas diferentes.

O que muda quando o setor decide não aceitar mais

A saída não é simples. Décadas de prática enraizada não podem ser facilmente remodeladas. Mas algumas coisas são concretas:

Embarcadores que implementam canais de denúncia e auditoria interna reduzem drasticamente o espaço para esse tipo de prática.

Transportadoras que documentam tentativas de extorsão e se recusam a compactuar criam precedente.

Motoristas que denunciam em vez de pagar constroem, aos poucos, um ambiente diferente.

A fiscalização também está mudando. O CIOT digital, as resoluções recentes da ANTT e o rastreamento obrigatório de operações criam uma trilha que antes não existia. Fica mais difícil operar escondido quando tudo precisa estar registrado.

O transporte merece mais

O transporte rodoviário de cargas sustenta a economia do Brasil. Merece ser tratado com a seriedade que isso exige.

Isso não precisa de uma lei ou MP nova pra começar, e sim de uma decisão individual: pagar coquinha como gentileza, agrado, parceria pra está na operação? Tudo certo.

Pagar coquinha como obrigação pra conseguir fazer o trabalho? Nunca mais. 

É um movimento Um ato Um manifesto Uma mudança


Formulário de contato